BARBA RUIVA
(Barbe Rouge)
(1959)
PIRATA FRANCÊS - "O DEMÓNIO DAS CARAÍBAS"
("SETE MARES" - SÉCULO XVIII)

No dia 29 de Outubro de 1959, nas páginas 8 e 9 do primeiro número da revista "Pilote", apareciam as duas primeiras pranchas de uma história que colocava em cena um pirata de nome "Barba Ruiva", conhecido por "O Demónio das Caraíbas".

Esta personagem dava, assim, origem a uma nova série de banda desenhada de grande sucesso, a qual narra as prodigiosas aventuras e peripécias vividas por um jovem rapaz que se vê lançado e envolvido em abordagens, lutas e combates sem misericórdia nem piedade, opondo piratas a marinheiros ao serviço da armada real, nos tempos heróicos da marinha e das embarcações à vela.

Através desta série de aventuras de grande realismo e rigor, os leitores "penetram" no mundo rude, cruel, mas corajoso e brilhante dos flibusteiros, corsários e piratas, cujos pavilhões e bandeiras negras semeiam o terror pelos "Sete Mares".

Do mesmo modo que, durante 15 anos, Charlier e Hubinon tornaram-se, graças, sobretudo, à série "Buck Danny", nos especialistas incontestáveis de tudo o que se relacionava com a aviação no universo da banda desenhada, também, relativamente à série "Barba Ruiva", estes dois autores dão provas, igualmente, de um conhecimento profundo e uma paixão comum por tudo o que se relaciona com o mar e a marinha.

Logo que Jean-Michel Charlier decide criar, com René Goscinny, um novo semanário juvenil, aquele retoma de imediato o estudo e análise de todos os seus "dossiers", apontamentos e documentos pessoais, inspirando-se em todas as técnicas e artifícios que havia utilizado no argumento da monumental biografia "Surcouf", realizada entre 1949 e 1952, a fim de imaginar e conceber as primeiras aventuras, façanhas e proezas de "Barba Ruiva".

Contudo, Charlier não irá transpor, exactamente, o universo e a psicologia presentes na série "Surcouf" para a série "Barba Ruiva", pois um corsário não é igual a um pirata. O primeiro dá metade dos seus despojos, riquezas e saques ao seu governo/rei, enquanto que o segundo conserva e guarda tudo para si.

Jean-Michel Charlier propõe, em seguida, ao seu velho camarada de profissão e grande amigo, Victor Hubinon, que este realize os desenhos. A resposta deste é imediatamente afirmativa, pois para, Hubinon, tal tarefa trata-se de um desafio aliciante e de uma aventura apaixonante. Aliás, o livro "A ilha do tesouro", de Robert Louis Stevenson, foi a obra que mais marcou a infância e juventude literárias de Hubinon. Além disso, este efectuou o seu serviço militar na marinha, alardeando e nutrindo um gosto particular pelos barcos e embarcações antigas.

A sua tarefa vai, todavia, revelar-se muito mais complexa do que ele imaginaria inicialmente. Cuidadoso e perfeccionista a ponto de dar a maior precisão e rigor possíveis aos seus desenhos, Hubinon vai passar muitas horas a verificar e a corrigir aquilo que constituirá sempre o seu grande problema: a orientação exacta das velas dos navios em função dos ventos.

É assim que, desde o primeiro número da revista "Pilote", o pirata "Barba Ruiva" figura no mesmo semanário, na companhia de "Jacques Le Gall", "Michel Tanguy e Laverdure" e "Astérix". Ao fim de algumas semanas, Charlier fixa, quase definitivamente, as bases do seu novo universo.

Tudo começa com a abordagem, pelo "Falcão Negro", de um galeão espanhol cheio de ouro. "Barba Ruiva", cuja reputação de pirata cruel percorre os "Sete Mares", descobre, na cabina de um barco, uma criança que ele adopta desde logo. Dá-lhe o nome de "Eric", decidindo que ele próprio se tornará também, um dia, um "Demónio das Caraíbas". A sua educação é imediatamente confiada a dois dos seus mais fiéis companheiros: "Baba" é nomeado ama e "Três Patas" torna-se preceptor.

"Eric" vai rapidamente crescer, envelhecer e, consequentemente, adquirir maturidade e experiência, transformando a vida e o destino de "Barba Ruiva" e permitindo a Charlier dar largas à sua imaginação excepcional. Começam, assim, 18 longas e apaixonantes aventuras desenhadas por Hubinon, entre 1959 e 1979.

Esta série torna-se de tal modo popular que conhece, a partir de 1961, uma versão radiofónica, com o formato de 100 episódios, os quais vão ser difundidos todas as sextas feiras, às 13h30m, pela Rádio Luxemburgo, numa emissão justamente intitulada "Pilote". Nesse mesmo ano, dá-se a aparição do primeiro álbum, "O Demónio das Caraíbas", constituído por 46 pranchas, propostas na "Colecção Pilote", com a ilustração da capa feita por Hubinon.

Não obstante os desaparecimentos de Hubinon, em 1979, e de Charlier, em 1989, a série continuou, tendo-se ocupado desta, desde então até hoje, mais dois argumentistas e três ilustradores. No total, foram realizados 33 álbuns da série, entre 1961 e 2004, ano da edição do último álbum, não havendo, para já, fim à vista. Registe-se que destes 33 álbuns, mais de metade (18) foram realizados pela dupla Charlier-Hubinon, a qual trabalhou nesta série durante praticamente 20(!) anos.

Contribuição de Alexandre Ribeiro